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A ditadura do ausente

17/06/2016 em BRAZILIAN BUSINESS
Steven Bipes_ ex-diretor executivo da AmCham Rio
A rotina se tornou familiar: pegar o jornal de manhã é reconhecer que você não está mais surpreso, mas deprimido com as notícias recentes de Brasília e seu impacto econômico. Então, é fechar o caderno e seguir a batalha diária para manter seu negócio, seu emprego, sustentar sua família e permanecer otimista no meio do furacão político e econômico. De um lado, seus amigos e familiares buscam oportunidades no exterior; do outro, a Lava Jato e as perspectivas negativas da economia se espalham no horizonte. Enquanto isso, segue cada vez mais comum colocar a culpa por toda essa confusão na classe política: corrupta, antiética, imoral, ineficiente, não representativa.


Ao observar a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara, em 17 de abril, todos notaram a baixa qualidade dos deputados eleitos, representando o povo no Congresso Nacional. Com grande parte dos membros da “casa” sob investigação, os cidadãos não estão, inicialmente, errados na atribuição de culpa. Mas sigo com a sensação de que essa análise é falha. Primeiro porque não identifica a raiz do problema; segundo, porque esse comentário simples representa o ápice do não engajamento cívico dos brasileiros.


Quando perguntamos nas ruas quais os principais culpados dos problemas do Brasil, a resposta quase unânime é “o governo e os políticos”. E se perguntamos qual a solução, ouvimos que o governo e os políticos deveriam fazer algo. Fernando Henrique Cardoso disse, certa vez, que a cultura democrática brasileira ainda “não pegou”. De fato, não há aqui a compreensão de que quem comanda o show e tem a responsabilidade em um país democrático é o cidadão, não o político.


Faça uma pesquisa informal e pergunte aos seus colegas quantos senadores ou deputados federais representam seu Estado. Pergunte o nome deles, suas políticas e quantas vezes seus amigos entraram em contato com esses representantes para expressar uma opinião e oferecer soluções. Pergunte quantas vezes tentaram mobilizar a família e colegas a fazer o mesmo. Você receberá como resposta olhares em branco, talvez um nome, acompanhado de incredulidade e zombaria.


Esse comportamento é compreensível. Por que um indivíduo que está lutando para sobreviver vai dedicar tempo para tentar falar com interlocutores que, considerando margens estatísticas, provavelmente estão sob investigação? Assim, a responsabilidade comumente aceita pelo cidadão brasileiro é somente a de apertar um botão na cabine de votação a cada punhado de anos e deixar que os políticos sigam como se existisse um piloto automático até a próxima eleição. Adicionalmente, aceitam encher as ruas com manifestações, bater panelas e, claro, reclamar em conversas informais.


O que não é compreendido é que, embora necessário, isso é insuficiente para que a democracia funcione. Participar ativamente do processo político pode ser chato, mas é indispensável. Esse é o pacto social democrático. Podemos viver em uma ditadura e reclamar sobre não ter voz ou podemos viver em uma democracia e fazer o trabalho chato de governar. Pode ser chato escrever uma carta para um político, assim como é ir ao supermercado e à academia, mas são coisas que precisamos fazer.


Muitos dizem que a tentativa de colaborar é inócua, pois o sistema está todo errado e só sobrevive na política brasileira quem rouba. A difícil verdade é que esse pensamento é justamente o cerne da corrupção na qual o Brasil se encontra. Se admitimos que esse jogo é impossível de ganhar e que a participação cívica não funciona, voltamos para uma “neoditadura” – a ditadura do ausente.


O estadista britânico Edmund Burke escreveu: "A única coisa necessária para o triunfo do mal é que os homens bons não façam nada". Será que essa nova geração de homens e mulheres brasileiros, éticos, vai se levantar e construir a cultura de participação cívica? Será que essas pessoas vão assumir a responsabilidade e liderar? Enquanto estamos parados, alimentamos a corrupção. Vamos parar de reclamar. Escreva uma carta, ofereça soluções, reúna-se com seus políticos eleitos. Torne-se um. Você é melhor do que eles. O Brasil precisa de você.
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