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Primeiras páginas de história da AmCham Rio

30/09/2015 em Notícias
Da criação à consolidação como instrumento efetivo de negócios, a Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro é testemunha ativa da nova parceria entre os dois gigantes das Américas
Fundadores da AmCham Rio posam para foto (Arquivo)
Por Natanael Damasceno


“Uma revista mensal sobre assuntos econômicos, industriais e comerciais, que alcança os mais importantes departamentos do governo brasileiro, é entregue nos estabelecimentos financeiros e comerciais dos Estados Unidos e é lida por cada executivo americano presente no Brasil.” A frase, que aparece na edição de dezembro de 1935 da Brazilian Business, evidencia o que a Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (AmCham Rio) esperava quando lançou a revista, quase 15 anos antes, em 1921. A entidade – com apenas 19 anos de existência, enfrentando um cenário repleto de instabilidade política e econômica – já estava consolidada como uma instituição fundamental para melhorar o ambiente de negócios e as relações comerciais bilaterais entre Brasil e Estados Unidos.

Prestes a completar um século, a AmCham Rio passa em revista a própria história. A partir da edição número 293 da Brazilian Business, uma série de quatro reportagens fará uma retrospectiva de atividades, posicionamentos e ações da instituição. Um resgate que tem como base as próprias publicações da AmCham Rio, com destaque para a revista Brazilian Business: um dos principais meios de comunicação com associados e não associados.

Essa história se inicia muito antes de 16 de abril de 1916, dia da fundação oficial da entidade. Começa na virada do século 20, quando Brasil e Estados Unidos, jovens países de trajetória semelhante, iniciam uma aproximação. Até a última década do século anterior, o relacionamento bilateral se deu de forma esporádica. Os vínculos com a Europa, em especial com a Grã-Bretanha, eram mais fortes. E a consolidação dos limites dos respectivos espaços territoriais ocupava quase que totalmente a política externa de ambos os países.

A aproximação se acelerou com a inauguração e a consolidação da República no Brasil, no fim do século 19, e se aprofundou com a indicação do Barão do Rio Branco ao cargo de ministro das Relações Exteriores, em 1902. “Com isso, a política internacional brasileira ganha uma nova diretriz, pois o barão acreditava ser fundamental buscar uma aliança com o novo ator que surgia no cenário internacional: os Estados Unidos, que despontavam rapidamente”, explica Ricardo Gomes, professor do curso de relações internacionais da ESPM. “O Brasil era essencialmente agroexportador e, a partir dessa decisão diplomática, a relação entre os dois países experimentou um crescimento exponencial. O Brasil foi o primeiro país da América do Sul a ter embaixada em Washington. E o então presidente americano, Theodore Roosevelt, era muito interessado na América Latina. Isso sem falar na identificação gerada pelas semelhanças contidas no nascimento das duas nações, ex-colônias de potências europeias”.

Naquele momento, mesmo em um contexto de forte protecionismo alfandegário norte-americano, o Brasil assegurou medidas de exceção ou redução tarifária a seus produtos, especialmente o café. Em troca, concedeu reduções de até 30% aos impostos aplicados aos produtos oriundos dos EUA.

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, os vínculos entre Brasil e Estados Unidos se estreitaram ainda mais. No início do ano seguinte, um artigo publicado na Dun's International Review (revista dedicada ao comércio internacional que circulou de 1893 a 1933 e era editada em Nova York pela Dun & Bradstreet, Inc.), defendia a formação de câmaras de comércio americanas em solo estrangeiro. No Rio, o cônsul-geral dos EUA, Alfred L. Moreau Gottschalk, manifesta-se publicamente a favor da criação da instituição no Rio, então capital federal, para impulsionar as relações comerciais dos dois países.

“Com o início da guerra na Europa, e o consequente fechamento de muitos mercados europeus, a América Latina naturalmente se voltou para os EUA para buscar suprimentos, assim como os EUA começaram a olhar para a América Latina como um novo mercado para exportação. O consulado-geral tem sido inundado por formulários desde que o conflito começou. Tanto de empresas brasileiras quanto de empresas americanas buscando conexões comerciais. E, mesmo que eu faça tudo ao meu alcance no sentido de dar publicidade às necessidades dos dois lados, tanto nos jornais daqui quanto nos dos EUA, às vezes sinto que uma instituição propriamente constituída de empresários americanos em uma câmara de comércio seria de grande valia”, defendeu o diplomata em resposta a uma circular distribuída nos círculos comerciais das colônias de imigrantes americanos no exterior.

Gottschalk argumentava que os EUA vinham tendo dificuldades em conseguir na América Latina o apoio de grupos locais de empresários no esforço de fomentar o comércio entre os dois países. E acreditava que uma entidade que pudesse sistematizar as informações sobre as necessidades dos mercados daqui e de lá poderia mudar esse cenário. “Mantemos no consulado arquivos com todas as requisições feitas por empresas americanas em busca de conexões de negócios aqui e por empresas brasileiras em busca de oportunidades similares nos EUA, além de informações sobre as propostas que se abrem no País e que podem interessar fornecedores americanos. Disseram-me que o escritório da R.G. Dun & Company e o National City Bank fazem o mesmo. Para catalogar todas essas informações de forma adequada e mantê-las acessíveis aos empresários brasileiros e americanos, e também a todo oficial do serviço consular, é preciso algum tipo de organização americana no Rio de Janeiro trabalhando para contribuir com essas listas. Talvez até mesmo na manutenção de um periódico que tenha as características de um jornal comercial”, preconizou o cônsul.

O entusiasmo do diplomata levou a uma primeira reunião, marcada para o dia 17 de maio no consulado, na qual foram discutidas algumas questões para a organização da câmara. Nela compareceram T. B. McGovern, que presidiria a instituição; W. V. B. Van Dyck; H. C. Brogden; R. S. Noxon; Lincoln Hutchinson; e o próprio Gottschalk. Na ocasião, foi elaborada uma lista de empresas a serem procuradas e foi tratada a questão da afiliação à Federation of American Chambers of Commerce, situada em Washington. O apoio foi imediato e a oficialização da AmCham Rio veio 11 meses depois, efetivando a entidade como a primeira câmara de comércio americana da América Latina, com 15 empresas associadas. As atividades às quais ela se propunha, no entanto, começaram muito antes.

O esforço contínuo para facilitar o diálogo entre líderes empresariais e governos tanto no Brasil quanto nos EUA já pôde ser identificado na primeira aparição pública da instituição, em junho de 1915, durante a visita do senador americano Theodore Elijah Burton ao Brasil. Registros da viagem feitos pela equipe do parlamentar documentam o banquete oferecido por uma “incipiente Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro, ao qual compareceram cerca de 150 pessoas, entre elas o cônsul Alfred Gottschalk, o embaixador Edwin Morgan e os mais proeminentes americanos no Rio”. O registro lembra ainda que o senador fez um discurso repleto de sugestões e bons conselhos à entidade que nascia ali, e que foi aplaudido efusivamente.

Muito mais que organizar encontros e banquetes para aproximar empresários e autoridades dos dois países, a AmCham Rio emprega, desde a criação, um esforço efetivo para estreitar os laços entre Brasil e Estados Unidos. No DNA da instituição é possível reconhecer uma busca genuína por eficiência. “Organização significa eficiência. E eficiência, hoje, significa sucesso”, afirma o editorial do primeiro número da primeira publicação oficial da entidade, The Quarterly, impressa, ainda sem uma periodicidade definida, nos anos de 1916 e 1917.

Embrião da revista Brazilian Business, que só começaria a ser editada cinco anos depois, o boletim continha, nos primeiros números, informações sobre a própria entidade e registros sobre a comunidade americana no Rio, como a lista de cidadãos e empresas presentes na cidade. Trazia também análises do cenário econômico nos dois países, relatórios de exportação, reportagens sobre a logística entre Brasil e EUA e artigos relacionados às principais commodities comercializadas, como algodão, açúcar, borracha e, principalmente, café – produto mais exportado pelo País aos EUA – juntando-se, de forma pioneira, aos poucos veículos que, na primeira metade do século 20, inauguraram o jornalismo econômico no Brasil.

Havia também reportagens sobre assuntos diversos, como a expedição do marechal Cândido Rondon pelo interior do país, informações consulares e artigos relacionados a normas e regras burocráticas a serem seguidas pelos empreendedores que buscavam oportunidades no comércio entre os dois países. Editado parte em inglês e parte em português em uma editora brasileira, o boletim era impresso em papel comprado nos Estados Unidos. Era uma publicação “pan-americana”, como definiu no primeiro número.

O primeiro editorial deixava clara sua intenção: “Nunca antes existiu proximidade tão grande entre as Américas do Norte, Central e do Sul. Nunca houve um cataclismo como a guerra que agora devasta a Europa para provar às pessoas sua interdependência comercial, econômica e política. E nunca antes houve tanta necessidade de organização, no sentido de promover o contato entre esses povos para ensiná-los a se conhecer, a acreditar uns nos outros e a trabalhar juntos em busca de prosperidade”, afirmava o texto.

Entre 1917 e abril de 1921, mês de lançamento da primeira Brazilian Business, a AmCham Rio trabalhou ativamente para aumentar as relações bilaterais com os EUA. Em artigo publicado no terceiro número da revista, em junho de 1921, Léo de Affonseca Jr. escreve que, no ano anterior, as importações superaram as exportações em valores em virtude da queda dos preços dos produtos brasileiros no exterior. E lembra que os EUA se tornaram não só o maior exportador como também o maior importador de produtos brasileiros.

Os primeiros números da Brazilian Business, aliás, refletem o amadurecimento do trabalho da AmCham Rio. Às análises dos cenários econômicos do Brasil e dos EUA e aos assuntos referentes ao cotidiano da entidade se unem reportagens sobre aspectos da economia e do cotidiano de cidades e Estados brasileiros.

No primeiro número, a revista publica, como curiosidade, uma foto inédita de Theodore Roosevelt em Santa Catarina, feita durante a passagem do ex-presidente dos Estados Unidos pelo País alguns anos antes. Depois de deixar a presidência, em 1908, Roosevelt havia sido convidado por Lauro Müller, então ministro das Relações Exteriores do presidente Hermes da Fonseca, para participar de uma expedição científica conduzida por Cândido Rondon pelo Mato Grosso e pela Amazônia, entre dezembro de 1913 e março de 1914. Para Müller, a associação com Roosevelt garantiria grande publicidade internacional ao Brasil e poderia estreitar as relações com os EUA – pensamento compartilhado pelos colegas da AmCham Rio.

A revista noticia o comitê criado pela AmCham Rio para desenvolver um memorial que celebraria a amizade entre os dois países. O monumento deveria ser entregue à cidade no ano seguinte, por ocasião das comemorações pelo centenário da independência. A estátua, confeccionada em bronze pelo escultor americano Charles Keeke, foi custeada por donativos angariados pela entidade. A escultura feminina, que mede 4,2 metros de altura e pesa 8 toneladas, traz na mão direita uma palma de louros e, na esquerda, os pavilhões americano e brasileiro ostentados por uma coroa de louros. Ela pode ser vista até hoje na Praça Quatro de Julho, em frente ao Consulado-Geral dos Estados Unidos.

Uma série de contratempos, no entanto, só permitiu que a estátua da amizade fosse inaugurada em 1931, nove anos depois da data prevista inicialmente, e em outro local: a Praça Estados Unidos, no cruzamento das avenidas Presidente Wilson e Aparício Borges. À solenidade, devidamente registrada nas edições de julho (com uma foto na capa) e agosto de 1931 da Brazilian Business, estiveram presentes o então chefe do Governo Provisório, Getúlio Vargas; o embaixador dos EUA, Edwin Morgan; o prefeito do Distrito Federal, Adolfo Bergamini; os ministros Afrânio de Melo Franco (Relações Exteriores), Oswaldo Aranha (Justiça), José Américo (Aviação) e Lindolfo Collor (Trabalho); autoridades civis e militares; inúmeros representantes de entidades comerciais; e cerca de 1.500 alunos das escolas municipais.

Setores importantes da economia como a agropecuária, a cafeicultura, a mineração, entre outros, tornam-se frequentes na revista, sobretudo na década de 1930. Fotografias e longas reportagens testemunham o alvorecer da industrialização do País.

As imagens registram personagens importantes na história da AmCham Rio, como os fundadores, presidentes e diretores da instituição. Também ganha destaque a evolução urbana da capital federal e o cotidiano de outras cidades brasileiras, com imagens de intervenções como a remoção do Morro do Castelo, no centro do Rio de Janeiro, e a recém-inaugurada Praça Paris, na Glória.

Peças clássicas da publicidade brasileira estão nas páginas da Brazilian Business. A maioria dos patrocinadores fazia parte da lista inicial de empresas do quadro de fundadores da AmCham Rio, como a General Electric do Brasil, a Elevadores Otis e a Burroughs Adding Machine, atual Unisys. Boa parte deles anunciou de forma assídua até os anos 1930. Conforme a revista se consolidava como uma referência para os executivos de empresas americanas e brasileiras, muitos outros anunciantes foram atraídos, como pequenas empresas, profissionais liberais, oficiais de exportação e importação e comerciantes de diversos matizes.

Relatório das atividades da AmCham Rio de 1929, publicado no início do ano seguinte, mostra que o resultado financeiro foi turbinado pelo desempenho da publicação. “Foi registrado um progresso ao longo do ano, pelo qual o sucesso da Brazilian Business foi amplamente responsável”, descreve o texto da edição de janeiro de 1930. Segundo o tesoureiro, a câmara fechara o ano com um crédito de 1,5 conto de réis contra 879 mil réis registrado no ano anterior, sendo que o lucro com a revista havia sido de 11 contos de réis.

E, apesar do aprofundamento da crise econômica mundial decorrente da quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em novembro daquele ano, e da instabilidade política no Brasil no alvorecer de 1930, foi nessa década que a revista experimentou o período de maior estabilidade. Uma reforma gráfica deu nova identidade visual à Brazilian Business, privilegiando as análises de mercado e os relatórios técnicos, sem esquecer, contudo, do espaço destinado ao cotidiano da cidade e às notícias relacionadas às câmaras do Rio e de São Paulo, onde o processo de industrialização da economia se mostrava mais evidente.

A AmCham Rio, por sua vez, redobra os esforços para fomentar o comércio entre os dois países, uma vez que os reflexos da crise de 1929 iriam se fazer sentir por boa parte da década. A crise econômica mundial e a quebra da bolsa trouxeram desaceleração às compras do governo americano, e o País sofreu muito com isso. Mas o baque não foi suficiente para abalar a relação entre Brasil e Estados Unidos, que volta a se intensificar com o novo cataclismo que surge no ocaso da década: a Segunda Guerra Mundial.

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