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‘O Brasil precisa redesenhar suas estratégias’

03/04/2017 em Entrevistas
Carlos Langoni defende maior acesso do Brasil ao mercado americano, mas alerta para possível guerra comercial
Ex-presidente do Banco Central e atualmente diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV), Carlos Geraldo Langoni diz que o Brasil, uma vez avançando nas reformas para estabilizar a economia, deve ter estratégias para ampliar o acesso a mercados. No entanto, ele alerta para os riscos de uma possível guerra comercial e os efeitos de um aumento do protecionismo sobre a evolução do PIB mundial.


As primeiras medidas do governo Trump são o indício de um processo de desglobalização e de maior protecionismo?

Acho que há uma onda protecionista que já vinha se desenhando com o Brexit. Do ponto de vista econômico, o Brexit e o governo Trump são as duas faces da mesma moeda, com características distintas, mas, no fundo, significam o apoio político a uma guinada com forte cunho protecionista. É um movimento antiglobalização que vem ganhando força. O processo da globalização já vinha caminhando em ritmo mais lento, por várias razões. Há alguns anos, o crescimento do comércio acontece num ritmo inferior ao do PIB mundial. Ou seja, o comércio deixou de liderar o crescimento mundial. Isso já era um sinal de certo cansaço do processo de globalização, o que é normal. Ele foi muito forte no pós-guerra, avançou com a liberalização dos fluxos de capitais e com a grande onda tecnológica. O que acho que alavancou politicamente essa reação contra a globalização é a questão migratória, que tem, realmente, um impacto, uma visibilidade irrefutável.

A crise migratória tem cara, tem um lado humano. Ela é mostrada ao vivo, em tempo real, na Europa, com o drama dos refugiados, do grande fluxo migratório do Norte da África. Nos Estados Unidos, a questão é muito mais de origem regional, com os imigrantes mexicanos e, de certa forma, também com o fluxo crescente de imigrantes ilegais, que eram tolerados e, na minha opinião, ocupam um espaço que o trabalhador americano não quer mais ocupar.

A verdade é que a globalização passou a ser contestada e é um retrocesso. O crescimento mundial já vem num ritmo frágil e qualquer choque externo, seja por terrorismo, seja por uma crise política como o Brexit, introduz-se uma componente de incerteza como não me lembro há muito tempo.


Como isso pode atingir o Brasil?

Temos uma economia tão fechada que esse debate em torno da nova ordem do comércio mundial tem um efeito de curto prazo pequeno para o Brasil. Na América Latina, quem tende a ser mais afetado é o México. Outro a sofrer é o Chile, que, aliás, é o grande sucesso sul-americano em termos de crescimento sustentado e controle da inflação. Outros exemplos seriam Peru e Colômbia. Na América Latina, países protecionistas como Brasil e Argentina, curiosamente, estão numa situação de poder, agora, redesenhar suas estratégias.


E no caso de uma revisão do Nafta?

O efeito direto para o Brasil seria muito pequeno. Pode até haver substituição de certas exportações do México por exportações brasileiras (para os Estados Unidos). No entanto, acredito que o processo de rever o Nafta é muito complicado para os Estados Unidos porque o Canadá é um aliado estratégico, inclusive do ponto de vista geopolítico de combate ao terrorismo.


Então há poucas chances de uma revisão do Nafta acontecer?

Acho que há uma chance muito menor, mas é possível que renegociem alguns aspectos do acordo. Um dos pontos mais sensíveis será o da migração de investimentos diretos estrangeiros para os Estados Unidos. Hoje, eles são o país que mais recebe esses recursos. De acordo com o os dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), foram US$ 385 bilhões em 2016. O Brasil aparece em sexto lugar. Certamente, um dos grandes objetivos desse investimento estrangeiro é beneficiar-se do acesso ao mercado americano e ao Nafta. Então, uma restrição ao Nafta pode ser um tiro no pé porque torna os Estados Unidos menos atraentes.


Há uma intenção do atual governo americano de frear o avanço de produtos chineses. Como isso pode afetar o Brasil?

O principal foco do discurso de Donald Trump, de fato, é a China, que hoje é o maior parceiro comercial do Brasil. Se a China sofrer uma desaceleração econômica - e irá sofrer, se entrar numa guerra comercial com os Estados Unidos -, isso significa que ela vai crescer menos e comprar menos produtos.
Se, por causa disso, em vez de 6% ao ano, a China crescer apenas 5%, isso vai provocar redução das suas importações e afetar o preço das commodities no mercado mundial, que ensaiam uma retomada, como é o caso do minério do ferro e do petróleo. O Brasil sofreria direta e indiretamente. Diretamente, porque somos grandes exportadores de commodities para a China e, indiretamente, por causa de uma possível queda de preços. Por causa de China e das externalidades de uma guerra comercial, o PIB mundial, em vez de crescer 3% ou 3,5%, pode vir a crescer 2%. Eu não afastaria nem mesmo o risco de uma recessão mundial.


Há quanto tempo não se registra o encolhimento do PIB mundial?

A última recessão mundial foi em 2008, na crise do subprime. Faz oito anos. Os Estados Unidos se recuperaram em cerca de dois anos porque houve uma política agressiva de estímulos monetários - o chamado quantitative easing - mas a Europa demorou muito mais. Só agora nos vemos, pela primeira vez, países europeus, como França, Alemanha, Itália e Espanha voltando a crescer e com o desemprego caindo. Foi um processo doloroso.


Os EUA são o principal investidor estrangeiro direto no Brasil em termos de estoque de capital. Essa situação pode mudar?

Acho pouco provável que haja restrição para multinacionais americanas investirem no Brasil. Pelo contrário, espero até um avanço pelo ajuste que estamos fazendo. Em janeiro, já notamos o crescimento das exportações, inclusive de produtos industrializados. Se o Brasil reduzir a instabilidade política - e isso está acontecendo - e caminhar para políticas macroeconômicas consistentes, como a PEC dos gastos; as reformas constitucionais, como a da Previdência e a flexibilização das leis trabalhista e tributária; acho que o Brasil vai aumentar a atração de investimentos estrangeiros diretos. Queria lembrar o paradoxo de que, apesar da recessão e do rebaixamento do grau de investimento pelas agências de risco, o Brasil recebeu investimento estrangeiro direto da ordem de US$ 78,6 bilhões no ano passado.


Que estratégias seriam importantes para o Brasil conquistar mercados nesse novo cenário mundial?

É até uma ironia do destino. Quando, finalmente, percebeu que tinha de ir além do Mercosul e abrir sua economia, o Brasil passa a enfrentar um ambiente externo hostil. Vimos que o modelo de campeões nacionais, de subsídios domésticos e de incentivos localizados fracassou de forma retumbante. Agora, precisamos focar em inovação, competitividade e produtividade. A abertura comercial é o grande atalho para isso acontecer. O Brasil deve buscar, sempre que possível, em alinhamento com a Argentina, novos parceiros comerciais. O Brasil não precisa ficar amarrado nessa discussão do quatro mais um (os quatro países do Mercosul negociarem juntos). É uma visão poética e que, na prática, não funciona.


Mas isso implicaria mudar as regras do Mercosul...

Sim, mas acho que temos que esgotar as discussões para uma agenda comum com Argentina e, se houver dificuldade, cada um deve seguir o seu caminho. Permitir que as negociações sejam feitas individualmente. Temos hoje países com situações muito diferentes, falando só dos membros permanentes, como Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Sem falar na Venezuela, que não pode participar de qualquer processo de abertura econômica. Alguma saída pragmática vai ter que ser encontrada.


O senhor vê neste governo uma disposição de caminhar desta forma?

Estou muito satisfeito com o discurso do ministro (das Relações Exteriores) José Serra porque ele é muito mais pragmático. Ele impôs ao Itamaraty uma visão muito mais de economista. Agora, é preciso transformar esse desenho genérico em atuação concreta.


O que poderíamos negociar nesse novo tabuleiro de comércio mundial?

O Brasil tem um setor pronto para qualquer discussão de abertura que é agronegócio. A indústria, que perdeu competitividade, é o grande obstáculo para que esses acordos comerciais avancem. No agronegócio, o Brasil já é uma potência mundial, sem considerar os ganhos de produtividade que virão da melhoria da logística e do transporte. Outra coisa boa é que estamos acabando com os cartéis na área de serviço de grandes construtores. Isso era um grande obstáculo ao negociar lá fora. Os países gostariam de ter o setor de compras governamentais incluído nesses acordos. O Brasil precisa fazer a revisão do conteúdo local. Tudo isso aumenta nosso poder de barganha. Na medida em que o Brasil aumente a eficiência de suas políticas domésticas e com o novo papel do BNDES de incentivar privatizações, estimular inovação e apoiar projetos de alto retorno social, a indústria vai começar a perceber a necessidade dessa abertura (comercial). Se o câmbio continuar num patamar razoavelmente estável, em torno de R$ 3,00 a R$ 3,20, temos que buscar espaços para ocupar. Ou seja, a agenda externa do Brasil, de certa forma, é definida pela agenda interna.


Essa discussão de protecionismo acontece no momento em que Brasil e Estados Unidos tentavam alcançar uma agenda de liberação de comércio e até de facilitar o trânsito de pessoas, em esforços feitos por governos anteriores. Até que ponto esses avanços podem ser ameaçados?

Não vejo os Estados Unidos de Trump discriminando o Brasil, mas também não vejo muita facilidade. O Brasil vai ter que ser muito criativo, se posicionar de maneira inteligente e buscar espaços para acessar o mercado americano sem criar muita reação, talvez até substituindo importações da China, como, por exemplo, nos setores têxtil e calçadista. O Brasil tem uma indústria em grande escala e falta acesso a mercados. Talvez possa ocupar alguns espaços. Temos a Embraer, que produz aviões militares... Com um mínimo de inovação tecnológica, a indústria brasileira tem como dar um salto de eficiência.


Entrevista concedida à Cristina Alves para a edição nº 299 da revista Brazilian Business. Acesse o conteúdo completo da publicação em http://bit.ly/2n4hwaW
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